talvez

Outubro 4, 2009

Talvez não fosse para ser. A realidade vivida de bons momentos tinha um papel fugaz. Nem bom, nem mau. Tampouco certo ou errado. Eram somente instantes que precisavam ser vividos para haver boas e felizes lembranças. O prelúdio de uma felicidade – mais madura – anunciada. Afinal de contas, o que seria do amor sereno, nao fossem os tormentos das loucas paixões?

Qual significado maior poderia haver em apaixonar-se não fosse para que se aprenda a amar?

Como saber desfrutar de um amor tranquilo, saboroso, sem conhecer a acidez conflitante de um sentimento enormemente passageiro? Sem resgatar lembranças de segundos tão intensos – de pequenas partículas de poeira suspensas no ar -, cheiros inesquecíveis e toques aquecidos.

Sim. Há saudade. De um passado arrebatador e de um sonho de futuro belíssimo. Como se todos os dias da vida fossem finais felizes de novela. Isso com a ingenuidade de não saber que se houvesse apenas finais felizes, os momentos todos seriam tristes.

Anúncios

uma lembrança inventada

Abril 14, 2009

Quantas saudades sinto das nossas noites juntos. As pernas entrelaçadas e os corpos exaustos deitados sobre o fino colchão da sua nova casa. Cada ambiente explorado com novas sensações. Um brilho no olhar próprio de quem encontrou a pessoa perfeita naquele instante. Sequências de segundos, minutos e horas de puro encantamento. A paz perturbadora de quem se sabe apaixonado. A certeza de que aquilo, ainda que distante, iria acabar. A luz azulada do cair da noite iluminava a sala deixando o cômodo ainda mais acolhedor. O gosto na boca de uma saudade antecipada. Adormecíamos. Pela manhã a mesma janela fazia o tempo parar; suspenso em pequenas partículas de poeira, que com a luz amarela brilhavam. O cheiro de café fresco tomava a casa toda. Aos poucos era necessário despertar.

fechar

Junho 10, 2008

Fechou-se em vez de desabrochar.

Chorou em vez de sorrir.

Fugiu em vez de ficar.

Foi embora deixando para trás uma felicidade vivida. Trancou-a numa gaveta, aquela da memória, e esqueceu-se dela. Quando é relembrado, finge que nunca a conheceu.

Ficaram para trás os anos aproveitados plenamente, o sabor da intensidade de amar, o jeito meigo no olhar. Fechou-se à compreensão, à compaixão, a fé. Esqueceu-se de Deus e deixou-se envenenar pela mediocridade do homem. 

Sumiu. Vez ou outra reaparece como uma saudade ou boa lembrança – só para contradizer a dureza fria da realidade.

resíduo

Maio 29, 2008

Apaixonaram-se. Viveram intensamente cada segundo de suas felicidades frágeis. Acreditaram em caminhar sobre as águas, vencer as distâncias e criar novas vidas.

Descobriram que o tempo, muitas vezes, corre mais rápido do que as pernas alcançam. Que o destino – ou os desígnios – do que vai além do humano, está sempre preparado para se fazer cumprir. Por vias tortuosas, estradas escuras e também por momentos de luz.

E o destino cruel por se saber fazer nos deixa um presente. Um resíduo. Uma pequeníssima memória irreverente que faz valer em um segundo todo o tempo passado vivido. Gostosa saudade, que deixa um quê amargo na boca.