Dizem por aí que a minha mãe morreu. O fato teria se dado no último dia 31 de janeiro, às 15h05 (hora que Jesus morreu na sexta-feira santa há 1977 anos) no Hospital São Paulo. A causa da morte? Câncer.

De fato, houve velório, muitas lágrimas e há ainda muita saudade. Acho que esta última ainda haverá, por alguns anos.

Mas o fato é que embora os fatos indiquem que de fato minha morreu – há uma certidão de óbito que confirma – eu tenho certeza de que ela está viva. E o caso trata-se de algo próximo, mas além, da semiologia. Vejam só:

Eu, cristã, fui ensinada a vida toda sobre esse lance de que a vida não termina aqui. Que quando a gente morre a gente vai pro céu.
E mesmo eu acreditando nisso a vida toda e tendo passado por algumas experiências em relação a morte, eu não tinha assim muita certeza de que isso acontecia mesmo.

Depois da tal morte da minha mãe eu sei que isso acontece e ponto. Sei que ela está viva. Sei que está me vendo… que está se comunicando de modos diferentes na minha vida. Tenho tanta certeza de que isso é real quanto sei que quase ninguém lê este blog, mas que ele existe.

Não sei se a vida lá nesse outro lugar prá onde a gente vai depois que “morre” é como os espíritas dizem que é, mas eu, na minha cabeça imagética, penso que a minha mãe mora nas nuvens, onde a gente nunca enxerga.

E digo mais, que a experiência de ver a minha mãe no necrotério – post morten – do jeito que a morte e o corpo são, de verdade, sem maquiagem, me fizeram entender, de verdade, que aquilo que estava ali não era ela. Ela, a minha mãe, era outra coisa, outra vibração, outra luz, outra energia. Ali, não havia energia…

Expliquemos assim: digamos que você vai no mercado e vê uma lata de molho de tomate. E vc compra aquilo, vê valor, pq ali dentro da lata tem molho de tomate, né? Então, lá no mercado ela tá cheia de molho de tomate e portanto é uma lata de molho de tomate que tem serventia. Depois, qnd vc chega em casa e usa o molho que tá dentro da lata, ela deixa de ser uma lata de molho de tomate e passa a ser só uma lata, que vai pro lixo. O molho, o tomate, virou outra coisa. Molho do macarrão, do bife parmegiana, sei lá.

Então, digamos que o corpo da minha mãe, o invólucro onde ela estava, e que eu e o mundo chamávamos de “ela”, na hora em que foi “esvaziado” deixou de ser a minha mãe. Passou a ser só a lata, a embalagem. Porém, a minha mãe de verdade, assim como o molho de tomate (de fato) continuam a existir numa outra forma, num outro lugar. No caso do molho, na panela. No caso da minha mãe, eu acho que é nas nuvens.

E assim, desse modo, sei que ela está viva. Não falo dela no passado e nem falarei. Talvez use esse tempo verbal apenas para falar de fatos que de verdade já aconteceram, num tempo anterior, mas que há ainda um tempo novo por vir. Não sem saudades, porque eu ainda estou dentro da minha lata de molho de tomate, e latas de molho de tomate, a priori, precisam de seus pares, mas quem sabe ainda que aqui, na prateleira do supermercado, eu não consiga entender prá onde foi a minha mãe, né?

P.S.: Mãe, vamos nos falando por aí. Em pensamento, em intuições, por meio de panelas, pratos e refeições saborosas com novos temperos. Com gosto de amor inabalável e pitadas de saudade, fé e coragem. Mande notícias. Amo você, sempre, não sua lata.

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