onde nos encontraremos, em breve.

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fonte: Pessoa, F. 1980. O Eu profundo e outros Eus, 21a edição. RJ, Nova Fronteira.

promessa

Fevereiro 9, 2009

Meu amorzinho.

Faz três dias que você chegou e por conta disso, meu mundo se transformou.

Nunca imaginei que alguém que a gente nem conhece pudesse trazer consigo tamanho sentimento.

Foram meses e mais meses esperando que você chegasse. Umas quarenta semanas – acho – que passaram num piscar de olhos.

Por sua causa aprendi em poucos dias algumas coisas que, tenho certeza, não esquecerei jamais. E que, sem você, eu levaria a vida toda para entender.

É por isso que vou entregar esta carta à sua mãe, que já sabe ler faz tempo, e que vai, um dia, poder contar para você o quão besta eu, sua tia, estava no dia em que você veio ao mundo.dsc00634

 

Mal você chegou e me ensinou uma das lições mais importantes que eu jamais pensei que aprenderia. Eu amo sua mãe. Parece besta, né? Um dia, quem sabe, você vai ter irmãos e vai ver que às vezes é difícil a gente entender que gosta de alguém que veio “pegar o lugar que era só nosso”. Na verdade vi que não é nada disso. Um irmão não pega o lugar do outro, mas cria um novo espaço. Faz crescer o amor, a vida, o sentimento. Irmão – ou irmã no meu caso – não veio prá deixar a minha vida mais difícil e sim para compartilhar a vida comigo. As alegrias, as tristezas, as dificuldades, os pensamentos sobre como deve ser o mundo, sobre como agir com seus avós e por aí vai. Parece um papelão, mas só hoje, aos 25 anos, entendi que eu amo a minha irmã. Meio burronilda a sua tia, né?

 

Outra coisa que você me ensinou. Não importa o que aconteça. A gente sempre encontra alegria no mundo. Como que uma pessoa do seu tamaninho pode trazer tanto prazer, tanto amor, tanta felicidade? Olha só, Pitoca, você traz sorrisos prá todo mundo. Vai trazer sempre. Mesmo que resolva um dia se rebelar, vai saber.

 

Não sei como é ter um tio/tia legal quando você já é gente grande, mas prometo para você. Vou querer ser sua tia mais legal do mundo. Ajudar você a crescer, a enfrentar as coisas da vida. Me comprometi com a sua mãe a ajudar fazer de você um bom ser humano. E, pode ter certeza, vou viver para isso acontecer. Maluco, né?

 

Enfim, sua tia-madrinha só acabou de escrever esse trecho da carta uns 20 dias depois de você nascer. Mas paciência. Com o tempo você vai aprender que a sua tia é meio lenta. E meio cagona também.

Não sou boa de dar muitas declarações de amor. Mas amo você. Amo sua mãe. Vou estar sempre pertinho e sempre do lado de vocês.

 

Com amor.

Titia.

 

 

São Paulo, 05 de fevereiro de 2009.

por que?

Setembro 19, 2008

Por que será que as coisas aconteceram assim? De repente toda essa mudança alegre-dolorida. Tão pequena, delicada e com olhos de gata. Olhos esses que resolveram, por um motivo desconhecido, esconder o brilho. Porém, quando se observa mais profundamente nota-se – lá no fundo – um suspiro guardado, com a esperança de que vai ficar tudo bem. Então, por que será que não está?

Por que tanta angústia, tanta abnegação de si mesma? Por que rejeitar-se em nome de uma terceira vida? Sabe-se disso, e eu entendo assim, que quando há mais de uma é necessário fazer escolhas, mas quando há três vidas é esta terceira que deve ser levada em conta? Vale assim o sacrifício?

Nâo sei, nem sei como escrever. Sei que gosto mais desses olhos do que jamais imaginei. Na verdade descobri, tanto tempo depois, que amo. E já que não encontro as palavras certas vou usar a música do Chico – tomando as devidas precauções e fazendo adaptações – para explicar o que vejo e sinto por ela.

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz

Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre (…)
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu