onde nos encontraremos, em breve.

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fonte: Pessoa, F. 1980. O Eu profundo e outros Eus, 21a edição. RJ, Nova Fronteira.

uma lembrança inventada

Abril 14, 2009

Quantas saudades sinto das nossas noites juntos. As pernas entrelaçadas e os corpos exaustos deitados sobre o fino colchão da sua nova casa. Cada ambiente explorado com novas sensações. Um brilho no olhar próprio de quem encontrou a pessoa perfeita naquele instante. Sequências de segundos, minutos e horas de puro encantamento. A paz perturbadora de quem se sabe apaixonado. A certeza de que aquilo, ainda que distante, iria acabar. A luz azulada do cair da noite iluminava a sala deixando o cômodo ainda mais acolhedor. O gosto na boca de uma saudade antecipada. Adormecíamos. Pela manhã a mesma janela fazia o tempo parar; suspenso em pequenas partículas de poeira, que com a luz amarela brilhavam. O cheiro de café fresco tomava a casa toda. Aos poucos era necessário despertar.

promessa

Fevereiro 9, 2009

Meu amorzinho.

Faz três dias que você chegou e por conta disso, meu mundo se transformou.

Nunca imaginei que alguém que a gente nem conhece pudesse trazer consigo tamanho sentimento.

Foram meses e mais meses esperando que você chegasse. Umas quarenta semanas – acho – que passaram num piscar de olhos.

Por sua causa aprendi em poucos dias algumas coisas que, tenho certeza, não esquecerei jamais. E que, sem você, eu levaria a vida toda para entender.

É por isso que vou entregar esta carta à sua mãe, que já sabe ler faz tempo, e que vai, um dia, poder contar para você o quão besta eu, sua tia, estava no dia em que você veio ao mundo.dsc00634

 

Mal você chegou e me ensinou uma das lições mais importantes que eu jamais pensei que aprenderia. Eu amo sua mãe. Parece besta, né? Um dia, quem sabe, você vai ter irmãos e vai ver que às vezes é difícil a gente entender que gosta de alguém que veio “pegar o lugar que era só nosso”. Na verdade vi que não é nada disso. Um irmão não pega o lugar do outro, mas cria um novo espaço. Faz crescer o amor, a vida, o sentimento. Irmão – ou irmã no meu caso – não veio prá deixar a minha vida mais difícil e sim para compartilhar a vida comigo. As alegrias, as tristezas, as dificuldades, os pensamentos sobre como deve ser o mundo, sobre como agir com seus avós e por aí vai. Parece um papelão, mas só hoje, aos 25 anos, entendi que eu amo a minha irmã. Meio burronilda a sua tia, né?

 

Outra coisa que você me ensinou. Não importa o que aconteça. A gente sempre encontra alegria no mundo. Como que uma pessoa do seu tamaninho pode trazer tanto prazer, tanto amor, tanta felicidade? Olha só, Pitoca, você traz sorrisos prá todo mundo. Vai trazer sempre. Mesmo que resolva um dia se rebelar, vai saber.

 

Não sei como é ter um tio/tia legal quando você já é gente grande, mas prometo para você. Vou querer ser sua tia mais legal do mundo. Ajudar você a crescer, a enfrentar as coisas da vida. Me comprometi com a sua mãe a ajudar fazer de você um bom ser humano. E, pode ter certeza, vou viver para isso acontecer. Maluco, né?

 

Enfim, sua tia-madrinha só acabou de escrever esse trecho da carta uns 20 dias depois de você nascer. Mas paciência. Com o tempo você vai aprender que a sua tia é meio lenta. E meio cagona também.

Não sou boa de dar muitas declarações de amor. Mas amo você. Amo sua mãe. Vou estar sempre pertinho e sempre do lado de vocês.

 

Com amor.

Titia.

 

 

São Paulo, 05 de fevereiro de 2009.

arrivederche

Novembro 27, 2008

palma-de-santa-rita1

pra Vó Lena.

“Nem mesmo as flores na vida têm a mesma sorte. Umas celebram a vida. Outras enfeitam a morte”.

desligamento

Novembro 6, 2008

Está partindo. Será?

A cada dia desliga-se mais. Primeiro foi o bom senso. Em seguida o vocabulário, depois os bons modos, a coordenação motora, o olhar, a vergonha, a lembrança de como rezar.

Agora foi-se quase tudo: a energia, a gordura, a pele – sempre frágil. O olhar, aquele por onde se reconhece o indivíduo. Já não tem mais capacidade. Para comer sozinha, engolir sozinha, andar sozinha.

Não sei onde ela está. Se é que está ainda nalgum lugar. Pele e osso simplesmente. E um sentimento triste, de morte diária.

Será assim para ela também? Para nós é assim.

por que?

Setembro 19, 2008

Por que será que as coisas aconteceram assim? De repente toda essa mudança alegre-dolorida. Tão pequena, delicada e com olhos de gata. Olhos esses que resolveram, por um motivo desconhecido, esconder o brilho. Porém, quando se observa mais profundamente nota-se – lá no fundo – um suspiro guardado, com a esperança de que vai ficar tudo bem. Então, por que será que não está?

Por que tanta angústia, tanta abnegação de si mesma? Por que rejeitar-se em nome de uma terceira vida? Sabe-se disso, e eu entendo assim, que quando há mais de uma é necessário fazer escolhas, mas quando há três vidas é esta terceira que deve ser levada em conta? Vale assim o sacrifício?

Nâo sei, nem sei como escrever. Sei que gosto mais desses olhos do que jamais imaginei. Na verdade descobri, tanto tempo depois, que amo. E já que não encontro as palavras certas vou usar a música do Chico – tomando as devidas precauções e fazendo adaptações – para explicar o que vejo e sinto por ela.

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz

Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre (…)
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu

alzheimer

Julho 10, 2008

O que restou além das lembranças?

Pele e osso. Certas maneiras insistentes de mexer as mãos e de arrumar sapatos que estão virados para baixo. Uma ou outra expressão familiar, um tom de voz que, por vezes, se reconhece.

Partiu há alguns anos e não houve velório, enterro ou cremação. Nenhum rito de passagem, nem sequer uma despedida. No lugar, uma nova pessoa com sentimentos, sensações, medos e uma linguagem estranha, que vive em uma realidade paralela, porém concreta. Um novo ser que conhecemos a partir dos 80, sem freios sociais ou recordações de um passado nem tão distante. Para nós, um cadáver adiado por quem zelamos com amor.

Resta daquela que partiu um tanto de saudade. Algumas fotos e pequenos mimos, dados com amor de vovó. O gosto doce e fascinante, que fica na boca, das comidas que não serão mais preparadas.

amnésia

Julho 4, 2008

É muito fácil não lembrar de nada. Mas vale a pena apagar as coisas boas pra esquecer as ruins? É um preço caro a se pagar, mas que tem uma porção de gente disposta a esquecer tudo e começar do zero, isso tem.

Não sabemos se isso um dia vai acontecer, porque somos o que fomos, o que fizemos, o que deixamos de fazer, o que acertamos e também o que erramos. A essência é do homem é memória. Como se forma o caráter? A partir de memória, de valores passados no passado. Como decidir entre o certo e errado? De lições aprendidas e guardadas na memória. Para não alongar muito, a conclusão é que tudo é memória.

Autor: Rafael Carrieri

Enviado por Renato Mazzoco

Autor: Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe,mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a
vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando
resolver aí quinhentos anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós  meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinho bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma  lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio  intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como pont freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

 Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae.  Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

 Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil  encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
 – Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

valsa brasileira

Maio 30, 2008

Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer

 

Chico Buarque